queimaduras stA queimadura é uma lesão ocasionada por uma trauma de origem térmica (calor ou frio), elétrica, química ou abrasiva. As queimaduras são classificadas de acordo com o grau e profundidade. Existem 3 graus de queimaduras: a de primeiro grau, a de segundo grau (superficial ou profunda) e a de terceiro grau. Alguns autores consideram queimaduras de quarto grau aquelas originadas por eletricidade onde atingem e comprometem outras estruturas como osso, cavidade, nervos, músculos, tendões e até mesmo órgãos.

O cirurgião plástico atua tanto durante a fase inicial (denominada de aguda) em que ocorreu a queimadura, bem como em uma fase tardia agindo na recuperação desta, tratando sequelas, como nas retrações de cicatrizes que impedem a movimentação normal das articulações, aplicando enxertos de pele e gordura, por exemplo.

O tratamento das queimaduras como as de primeiro grau (queimaduras solares) orienta-se seu repouso, associado a uma boa hidratação oral e cremes hidratantes sobre as áreas atingidas.

As de segundo grau, necessitam atendimento médico e tratamento adequado com desbridamento (quando necessário), limpeza da ferida e aplicação de pomadas específicas. Tendem a se recuperar entre 7 a 10 dias.

Queimaduras maiores, de espessura parcial profunda (segundo grau profundo), devem ser submetidas a desbridamento e se necessário a enxertia precoce (em momento oportuno), proporcionando uma recuperação mais rápida e com menores alterações cicatriciais e sequelas.

Já as de terceiro grau, ocorre uma destruição total da pele e não possuem a capacidade de se regenerar. Podem desta forma, ocasionar sequelas importantes e necessitando assim de abordagem específica e cuidadosa, com intervenção cirúrgica com desbridamento e de reconstrução (enxertos e/ou retalhos) no momento adequado.

Enxertos de pele

Os enxertos cutâneos são muito úteis para o fechamento e proteção de feridas extensas, porém dependem de um leito vascularizado na área receptora para a sua integração. Podem ser doados pelo próprio indivíduo (autoenxertos), por indivíduos da mesma espécie (aloenxertos ou homoenxertos) ou de outras espécies (xenoenxertos ou heteroenxertos), sendo que os dois últimos são indicados quando não há áreas doadoras suficientes no paciente e são usados como curativos biológicos ou cobertura provisória. Quanto à sua espessura, os enxertos de pele podem ser divididos em enxertos de espessura parcial e de espessura total.

Enxertos de pele parcial

Contêm epiderme e parte da derme, que pode variar de espessura (enxertos finos, intermediários ou espessos). Indicação: é o mais utilizado no tratamento de médios e grandes queimados. Formato: podem ser usados como pequenos fragmentos (enxertos em selo), tiras (enxertos em lâmina) ou expandidos através da criação de fenestrações (enxertos em malha). Técnica de retirada: são retirados com aparelhos especiais (dermátomo ou faca de Blair). Áreas doadoras: couro cabeludo, abdome, coxas e costas. Técnica de fixação: podem ser fixados apenas com curativos ou bandagens. Tempo de integração: 7 dias. Vantagens: apresentam maior facilidade de se integrar na área receptora, cobrem grandes superfícies, podem ser expandidos e cobrir áreas maiores usando-se menos enxertos. Desvantagens: sofrem maior contração secundária, ficam mais frágeis e ressecados (necessidade de hidratação constante). Tempo de recuperação da área doadora: quanto mais espesso é o enxerto maior é o tempo de recuperação.

Enxertos de pele total

Contêm epiderme e toda a derme (todas as camadas da pele). Indicação: são usados em pequenas lesões de áreas nobres como face, mãos e dedos, raramente são utilizados no tratamento das queimaduras em sua fase aguda. Formato: geralmente possuem a forma de um fuso. Técnica de retirada: são obtidos através da exérese de fuso de pele e sutura da região doadora. Áreas doadoras: abdome, região inguinal, virilha, regiões retroauriculares. Técnica de fixação: há necessidade de se retirar toda a gordura remanescente sob o enxerto e fixá-lo com sutura e curativo compressivo. Tempo de integração: 7 dias. Vantagens: sofrem menor contração secundária, mimetizam melhor a pele normal, são mais firmes, resistentes e hidratados. Desvantagens: apresentam menor facilidade de se integrar na área receptora, necessitando de leitos ricamente vascularizados, servem apenas para cobrir lesões menores. Tempo de recuperação da área doadora: é rápido e deixa apenas uma cicatriz linear.

Substitutos cutâneos (coberturas provisórias)

A solução consagrada pela cirurgia plástica para perdas do revestimento cutâneo é a enxertia de pele autógena (do próprio indivíduo), porém há casos em que ocorre escassez de áreas doadoras, como em grandes queimados. Atualmente, há muito interesse por materiais biológicos, biossintéticos ou sintéticos que possam substituir a pele, mesmo que provisoriamente, diminuindo o risco de infecções até o momento de uma cobertura definitiva das feridas. Existe uma grande variedade de substitutos cutâneos com diferentes aplicações, vantagens e desvantagens. Infelizmente, a maioria desses materiais ainda é muito cara ou não é liberada na maioria dos Centros de Tratamentos de Queimados existentes no Brasil.

São considerados substitutos de pele:

  • Aloenxertos;
  • Enxertos doados por indivíduo da mesma espécie. Exemplos: pele de cadáver e membrana amniótica (não são comerciais);
  • Xenoenxertos;
  • Enxertos doados por seres de outras espécies. Exemplos: derivados da pele de animais (rã, porco, boi);
  • Substitutos biossintéticos e sintéticos;
  • Materiais produzidos através da engenharia de tecidos. Exemplos: Integra®, Alloderm®, Dermagraft®, etc;
  • Culturas epiteliais;
  • Queratinócitos humanos cultivados em laboratório (não é comercial);
  • Retalhos - Retalhos locais, regionais e a distância são úteis para o fechamento de lesões maiores, profundas, sem leito adequado para a pega de enxertos, causadas por queimaduras de terceiro grau.

Tratamento de sequelas

Medidas como enxertia precoce, uso de malhas compressivas, talas e realização rotineira de fisioterapia motora podem prevenir sequelas em queimaduras. Dentre as sequelas, podemos citar: formação de cicatrizes inestéticas, hipertróficas, queloidianas, retráteis (limitantes), desenvolvimento de úlceras crônicas e degeneração maligna de cicatriz ou úlcera (úlcera de Marjolin). O tratamento de sequelas pode envolver ressecções ou redirecionamento de cicatrizes, uso de retalhos locais, regionais ou à distância, com ou sem expansão, uso de novos enxertos de pele total ou parcial e enxertos compostos.

São exemplos de sequelas após queimadura:

Retração mentotorácica - Bridas que puxam o queixo para baixo e limitam a extensão da cabeça. Pacientes possuem dificuldade em elevar a cabeça e dependendo da gravidade não conseguem fechar sua boca dificultando até mesmo se alimentarem.
Tratamento: liberação do queixo (degola) e uso de enxertos ou retalhos expandidos.

Retração cicatricial de dedos das mãos - Bridas que limitam o movimento dos dedos.
Tratamento: liberação das articulações através de retalho crossfinger, zetaplastia ou enxertos de pele.

Retração de axilas e cotovelos - Bridas que limitam o movimento dos braços e antebraços.
Tratamento: liberação das articulações através de múltiplas zetaplastias, transposição de retalhos ou enxertos de pele.

Deformidades envolvendo mamas ou aréolas - Deslocamentos das mamas ou aréolas no sentido da cicatriz.
Tratamento: reposicionamento e simetrização das mamas e aréolas através de zetaplastia, retalho de avanço em V-Y ou enxertos de pele.

Deve-se lembrar que o mais importante fator é a PREVENÇÃO. Cuidados na cozinha como cozinhar em panelas utilizando apenas as "bocas" do fundo do fogão, bem como os cabos das panelas devem permanecer para dentro. Não permita crianças na cozinha!!!

Paulo Renato de Paula, M.Sc; Ph.D